"Eu me via novamente na frente do espelho repassando pela milionésima vez possíveis falas.
-Oi Ed. Como vai?
Eu criava também possíveis respostas, formando um diálogo imaginário.
-Sim, também estou bem. Então... Como vão as coisas no seu novo colégio?
Não, vai ficar muito óbvio.
-Olá Eduardo. Como vão as coisas?
Mais uma vez imaginei a resposta sem ao menos pensar que estava parecendo uma doida varrida.
-Então tá, tchau.
Céus, por que conversar com meu ex é TÃO difícil?
Imaginei uma daquelas vozes de locutor e uma musiquinha ao fundo dizendo:
"- Primeiro, ele é seu ex. Segundo, ele te deixou para ficar com outra mulher, uma mais velha, mais gostosa e bem mais interessante!"
Locutor, eu já mencionei o quanto eu te odeio?
Estava pensando em muitas coisas quando, do nada, Alice aparece ao meu lado.
-Você está bem, Kassey?
-Como entrou aqui?
Sim, eu estava pasma. Ou acredito que estava. Não tenho certeza!
A porta e as janelas de meu quarto estavam trancadas, como Alice havia entrado?
-Olha, eu subi no telhado que fica embaixo da minha janela, subi na casa de árvore e no telhado que dá para a janela do seu banheiro. Ai amiga, por que seu quarto tinha que ser virado na direção do "idiota" e não do meu?
-A arquitetura não permite, querida. - Ouvi a voz de minha mãe.
Espera, mãe?
-Como entrou?
-Eu tenho a chave reserva. Fora que eu ouvi você falando sozinha ou melhor, falando com o Ed.- Ao falar Ed, minha mãe fez um sinal de aspas com os dedos.
Ok... Só eu estou achando minha vida conturbada demais?
-Querida, eu sei que você passou pelo primeiro término de namoro a pouco tempo- POUCO TEMPO? Mãe, hello, foi há seis meses! Fora que eu já namorei depois disso! - mas não tem que ficar se martelando, forçando-se a vê-lo novamente. Não precisa voltar a ser amiga dele.
Jesus, minha mãe está querendo ser compreensiva? Hum... Acho que vou tirar proveito disso...
-Mãe... -Forcei minha cara mais triste- Estou magoada com a volta do Ed para Londres. Por que ele não ficou no Brasil? Sabe o que eu acho que pode me animar?
-O que, meu amor?
-Sair um pouco, fazer umas comprinhas.
-Ok, meu anjo. Eu libero o cartão para vocês duas hoje.
-Ok mãe, eu te amo.
Peguei minha bolsa, calcei meus tênis e sai do meu quarto puxando Alice com uma mão e a outra pegando minha bolsa. Sim, meu cartão só é desbloqueado quando minha mãe deixa.
-Amiga safada essa minha ein? - Alice ria sem parar - Enganando a mãe só pra fazer umas compras.
-Credo, Alice. Achei que você ia gostar.
-Eu amei, vou ali pegar minha bolsa e a gente vai.
Alice entrou para dentro de sua casa, eu não entro lá faz alguns dias. Desde que Eduardo voltou do Brasil eu não piso dentro da casa dos Monteiro.
Eduardo Monteiro e Alice Monteiro, meus melhores amigos desde... Bem, desde que eu me lembro. Vieram do Brasil ainda bebês. Gostei do Ed durante uns oito anos e namoramos durante dois. Ele me trocou faz seis meses.
Por mais que não pareça, eu o superei muito bem.
-Kassey?
Estremeci ao sentir uma mão em meus ombros. Virei-me e me deparei com Eduardo, causador do meu sofrimento constante.
Ah, eu disse que havia superado né? Pois bem, eu menti.
-Ed... Eduardo?
-Kassey! -Os olhos dele brilharam e ele veio com tudo para cima de mim, querendo me abraçar.
-Ei, o que tá rolando aqui?
Alice, eu prometo que te dou aquele vestido de 580 libras que você tanto quer. PROMETO.
-Nada, eu só tô super feliz de ver a Kass. - Eduardo dirigiu o olhar para mim - Você mudou bastante. Está mais bonita, parece mais madura.
Só pareço, meu amor.
-Creio que sim, Eduardo. Vamos amiga?
-Vamos Kassey. Tchau maninho.
-Tchau mana, tchau Kass.
O brilho em seus olhos sumiu, seu tom de voz foi de animado para amargurado em questão de segundos. Eduardo Monteiro estava... Triste?
O trajeto para o shopping foi tortuoso. Minha cabeça latejava e meus pensamentos sequer me deixavam descansar.
-Kassey, está bem?
-Sim, só um pouco distraída. Eduardo está mais bonito, não?
-Sim está. Ai amiga, não consigo mais esconder algo de você.
-Esconder o que, Al?
Alice me preocupava sem necessidade, às vezes. Mas eu sentia que o que quer que fosse, seria sério.
-O Ed, ele terminou com você mas... Ele havia te deixado uma carta explicando a verdade. - Alguém me belisca que eu estou sonhando! Mentira, belisca não que dói. - Amiga, eu nunca li. Mas eu sei o que realmente aconteceu. Leia agora, antes que seja tarde demais..."
Meus dedos já estavam cansados de tanto digitar. Os vinte e cinco possíveis finais para o meu livro não se adequavam. Eu me sentia como um leitor preso à uma história emocionante, e que no final, se decepciona com tamanha falta de competência do autor.
Como explicar que Eduardo havia deixado Kassey por um motivo de força maior? Algo que colocaria a vida dela em perigo? Algo que o matou e que anos depois a matou?
Meu único desejo é terminar esta obra antes que "eles" me encontrem e me matem por quererem saber do nosso "segredo", por quererem saber da carta.
As incansáveis batidas em minha porta indicam que em breve ela será arrombada. Temo que sejam "eles".
Então, caro leitor, se a curiosidade lhes for maior, saibam apenas que Kassey e Eduardo se amaram até o último segundo de vida dele.
Creio que a morte está me esperando, já que as batidas ficam mais fortes à cada momento.
Agradeço-lhes desde já.
Alice Monteiro Hector